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BAUMAN: MODERNIDADE E CONSEQUENCIAS DA GLOBALIZAÇÃO
resenha recebida em 29/06/2011
resenha aprovada em 15/09/2011
Jucélia Bispo dos Santos(1)
1- Construção da Modernidade Sólida
Zygmunt Bauman encontra-se entre os mais importantes sociólogos da sociologia moderna. Ela pesquisa escreve a respeito temas relevantes dos tempos atuais como: a globalização e suas conseqüências, tanto no que tange suas transformações, assim como as mudanças trazidas par a vida das pessoas nela inserida. Uma das maiores preocupação do Bauman é analisar o processo de individualização da sociedade. Para desenvolver tal análise ele se voltar para a observação do projeto da modernidade no ocidente. Segundo o Bauman, a modernidade costuma ser entendida como um ideário relacionado ao projeto de mundo e visão de sociedade, empreendidos em diversos momentos ao longo da Idade Moderna, sobretudo a partir da Revolução Industrial. Em síntese, ela faz uma investigação sobre as origens e desenvolvimento do Capitalismo.
Para fundamentar suas análises, Bauman faz uma distinção entre períodos da modernidade e da pós-modernidade (1998; 1999); ou como tem preferido chamar em seus últimos trabalhos: modernidade sólida e modernidade líquida (2001; 2004; 2006). A primeira seria justamente a que tem início com as transformações clássicas e o advento de um conjunto estável de valores e modos de vida cultural e político. Desta forma, Bauman afirma que sólido é aquilo que para outros pensadores, como Weber e Marx, soa como algo rígido, duradouro e previsível em suas formas e possibilidades, em muitos de seus aspectos (econômico, social, político etc.). A Modernidade significa o fim da crença em uma ordem revelada e mantida por Deus e a assunção de que “os humanos encontram-se no mundo por conta própria”. Para ele, essa nova modernidade maleável promove a ascensão do individual, e causa declínio das instituições sólidas e tradicionalistas. Para Z. Bauman (1999 e 2004), o que mudou foi a modernidade sólida que cessa de existir e em seu lugar surge a modernidade líquida.
A modernidade sólida, para Bauman, é caracterizada, principalmente, através da idéia de projeto moderno. O projeto moderno seria o projeto de controle do mundo pela razão par tornar o mundo o “melhor possível dos mundos,” através do ordenamento racional e técnico. O Estado, através de seu projeto: “fornecia os critérios para avaliar a realidade do dia presente. Esses critérios dividiam a população em plantas úteis a serem estimuladas e cuidadosamente cultivadas e ervas daninhas a serem removidas ou arrancadas.” (BAUMAN, 1999, p.29) Bauman, concebe a modernidade sólida como plano de controle estatal e científico, valorizando, assim, instituições sociais e políticas. Nessa fase, a igualdade era, ainda, um valor tão importante, ou mais, que a liberdade. Apesar de a individualização ser considerada relevante, era secundária. O indivíduo podia ser distinto e diferente, no entanto, caso desejasse uma aceitação plena deveria se conformar à identidade do Estado a que pertencia. No entanto, os indivíduos já eram entendidos como livres e iguais, podendo exercer direitos e deveres, sendo responsabilizados por suas ações, e sendo livres para empreender a tarefa de construção de uma identidade. Com a modernidade (sólida), os indivíduos deveriam ambicionar se tornar alguém, e lidar com as conseqüências dessa ambição, tendo em vista que poderiam inclusive fracassar em pleno caminho de sua realização como indivíduos. Essa mudança de parâmetros teria provocado, então, uma quebra dos moldes, as molduras de classe, etnia, linhagem etc., alguns dos já históricos pontos de orientação.
Para Bauman, o projeto moderno, motor da modernidade sólida, realizava através dos Estados-Nações, uma eliminação da ambivalência. Tudo deveria ser conhecido e categorizado – para então ser controlado. Tudo que permanecesse duplo, confuso, “em cima do muro” – deveria ser eliminado. A ciência operou essa eliminação da ambivalência através da classificação do mundo, visando seu posterior uso técnico. Assim, constata um crescente predomínio da racionalidade instrumental. A racionalização percebida por Bauman (1999), opera na modernidade - tal como Weber (2004b) acentua - através principalmente da ciência e do Estado. A eliminação da ambivalência é definida por Bauman como o exercício da modernidade rumo à racionalização. O objetivo da ciência era eliminar toda a incerteza, imprevisibilidade e indeterminação. Da mesma forma, o objetivo do Estado era a eliminação de suas contradições internas, e isso significava a exclusão dos que não se adaptassem.
Com o mundo dos objetos manipulados pela ciência e pela técnica, a sociedade passou a ser tomada como objeto de manipulação técnica. A engenharia social foi a transformação do ser humano num meio racionalmente controlável. A humanidade foi tomada, durante a modernidade sólida, como objeto de controle, como instrumento ajustável aos fins do projeto moderno. O ser humano foi tomado como objeto a ser moldado pela racionalidade científica e técnica, e também pela racionalidade legislativa.
Enfim, para Bauman a modernidade significou uma luta contra a toda e qualquer indeterminação. Foi a tentativa de eliminar a incoerência de toda a existência humana. O grande problema da modernidade foi, para Bauman, a suposição de que a ação política – e técnica - racionalmente orientada poderia eliminar toda a contradição do mundo. O processo de individualização é central na modernidade, assim como o processo de racionalização das relações sociais.

2- A Modernidade Líquida
Para Bauman na modernidade líquida, tudo é volátil, as relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de grupos de amigos, de afinidades políticas e assim por diante, perde consistência e estabilidade. O indivíduo já não era determinado pelo lugar no qual nascia, e por relações pré-estabelecidas. Medo, exclusão social, produção do mal: são estes os elementos que Bauman considera como “os efeitos colaterais” precisamente da modernidade líquida marcada pela globalização.
Na fase da liquidez, as mega-empresas desfrutam de toda a liberdade para realizarem manobras econômicas que tornam o Estado um mero espectador, dominado e sem poder de reação. Tendo na incerteza do mercado uma arma de armotização dos possíveis atos de revolta, tanto da sociedade, como de seus governantes.
A promessa do livre comércio e o desenvolvimento econômico como profícuo a diminuição das desigualdades sociais, tem se mostrado uma falácia, o que se apresenta é um aumento cada vez mais elevado da riqueza dos mais ricos e uma diminuição drástica das condições de vida dos mais pobres.
Este novo mundo proposto é o da fome, pobreza e miséria absoluta, onde 800 milhões de pessoas estão em condições de subnutridas e 4 bilhões de pessoas vivendo na miséria (BAUMAN, 1999, p. 81). Bauman fala que o que se propaga é a idéia de que pobreza é sinônimo de fome, mas existem outras questões da pobreza que ficam “encobertas”: péssimas condições de vida, analfabetismo, famílias destruídas, etc. Todas as tentativas de mudança encontram barreiras e sua eficiência é momentânea, pois, este sofrimento da sociedade humana tem como precedente, amarras, que são facilmente retraçadas e mutáveis pela globalização e pelo sistema de produção capitalista.
Com a individualização radicalizada, todas as formas de sociabilidade que sugerem dependência mútua passam a ser vistas com desconfiança. As relações interpessoais, segundo Bauman, suspiram um saudosismo descaracterizado do pré-conceito do termo, ele não se dá pelas inter-relações, mas por uma busca da eficácia de mútua vigilância, de saber quem é você no limitado universo de sua vizinhança, ressalta-se, homogênea. Criando-se uma situação dúbia, pois ao mesmo tempo em que se investe em proteção, adicionando formas de expurgar esses novos vilões, há o enclaustramento, cada vez mais reducionista, de seus investidores em uma realidade-cela.
Com a modernidade líquida, o indivíduo se torna único – ou assume o dever de ser único. Essa mutabilidade de relações também promove o desprendimento, no sentido afetivo e de posse eterna dos bens lucrativos, bastando dizer que hoje devem sim ser de favorável retorno financeiro, mas já tendo noção que são altamente perecíveis e, decorrente a isto, devem ser rapidamente rotacionados.
Na modernidade líquida pode-se identificar a centralidade do consumo um meio por onde opera uma objetivação e instrumentalização das relações sociais. O consumo se torna, na modernidade líquida, fonte principal de satisfação. Mas, além de fonte de satisfação, o consumo se torna o meio por onde os indivíduos se constroem como sujeitos. Através da condição que é a posse de determinados objetos de consumo que uma identidade pode ser assumida ou não. Esses indivíduos, controversamente, não têm controle sobre seus destinos e decisões e, o que é pior, nem podem culpar um terceiro pelo seu grilhão imaginativo, pois a pseudo-liberdade é uma ilusão criada como possibilidade de fuga, da incapacidade deste, que não ousa extrapolar os paradigmas. Assim, até o espaço público têm-se tornado lugar de problemas privados, socialmente trata-se de uma involução ímpar pelo fato de que: “Não há indivíduos autônomos sem uma sociedade autônoma, e a autonomia da sociedade requer uma auto-constituição deliberada e perpétua, algo que só pode ser uma realização compartilhada de seus membros” (BAUMAN, 2001, p. 50).
A individualidade é assim, condicional à posse de objetos específicos, ou seja, sujeita ao mundo dos objetos que podem (ou não) ser adquiridos e consumidos. Segundo Bauman:
O mundo construído de objetos duráveis foi substituído pelo de produtos disponíveis projetados para imediata obsolescência. Num mundo como esse, as identidades podem ser adotadas e descartadas como uma troca de roupa. O horror da nova situação é que todo diligente trabalho de construção pode mostrar-se inútil; e o fascínio da nova situação, por outro lado, se acha no fato de não estar comprometida por experiências passadas, de nunca ser irrevogavelmente anulada, sempre ‘mantendo as opções abertas. (1998, p.112-113)
Assim sendo, os objetos são vistos como objetos de consumo, os quais perdem rapidamente seu poder de sedução. De acordo com Bauman, com o consumo a sedução se perde. Para ser indivíduo é necessário estar consumindo constantemente, pois, ao consumir, através da posse dos objetos de consumo, que o homem se torna indivíduo. Ou seja, a individualização obtida através do consumo.
Para Bauman, todas as relações passam a ser reduzidas a relações de consumo por meio da instrumentalização das relações sociais. Como o consumo, que é passageiro – e se esvai com o fim do desejo – o indivíduo se torna algo móvel, passageiro: “Para a grande maioria dos habitantes do líquido mundo moderno, atitudes como cuidar da coesão, apegar-se às regras, agir de acordo com precedentes e manter-se fiel à lógica da continuidade, em vez de flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração, não constituem opções promissoras.” (BAUMAN, 2005, p.60). Para Bauman, porém, no atual período da modernidade, a centralidade não se encontra propriamente no dinheiro, e sim no seu uso, no ato de consumo, se hoje o dinheiro é tão importante é porque apenas através dele podemos nos realizar no consumo de bens. Segundo ele: “Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependência de consumidor – a dependência universal das compras – é a condição ‘sine qua non’ de toda liberdade individual; acima de tudo da liberdade de ser diferente, de ‘ter identidade’” (BAUMAN, 2001, p.98) Inclusive as mais profundas relações afetivas – amizades, namoros, casamentos – são afetadas pelo consumo como ideal do agir social moderno-líquido. O outro passa agora, a ser tomado também como objeto de consumo, útil enquanto oferece satisfação, e dispensável ao fim da utilidade. “Todo o mundo pode ser lançado na moda do consumo; todo o mundo pode desejar ser um consumidor e aproveitar as oportunidades que esse modo de vida oferece. Mas nem todo o mundo pode ser um consumidor”, palavras de Bauman, que exemplifica essa colocação com dois extremos: o Turista e o Vagabundo. O turista é um privilegiado que conseguiu o prêmio da mobilidade, sua única frustração é pensar que pelo fato de estar aqui agora, não pode estar em outro lugar. Ele vive ansioso pela nova experiência. Seu maior privilégio é movimentar-se porque quer, como quer e quando quer. O vagabundo é um consumidor frustrado. Movimenta-se porque é empurrado pela necessidade de experiência. Os seus sonhos são apenas um emprego qualquer, uma tarefa humilhante para o turista. O primeiro viaja à vontade, normalmente em primeira classe, diverte-se bastante, é adulado, recebido com sorrisos e de braços abertos. O segundo viaja às escondidas, por vezes ilegalmente, ou pagando pela terceira classe e, muitas vezes, visto com desaprovação. As relações humanas dos indivíduos que se constroem pelo consumo, acabam sendo, como eles próprios, imagem do consumo, e acabam por gerar uma fluidez, uma fragilidade cada vez mais acentuada nos relacionamentos humanos. (BAUMAN, 2004; 2006)
Observa-se, ainda, que numa mesma sociedade de consumo o consumidor é a pessoa em movimento e fadada a se mover sempre. A identidade individual se torna passageira, o consumo se torna a forma de construção do self, e como produtos que se alternam nas propagandas, o indivíduo rompe com a fixidez. O indivíduo agora, sem obrigatoriedade de conduta em conformidade com a comunidade, se torna livre, mas essa liberdade é relativa na medida em que suas opções de construção da individualidade são limitadas (ou ilimitadas) pelo consumo.

3- A Globalização
Para Bauman, existe uma ideologia da globalização e há ideologias contra ela. Pois existe um ponto de vista que agora é chamado de alteromundista, porque prefigura outro modelo de globalização. Mas, não devemos esquecer-nos que também existem os processos reais de globalização que ressecam toda soberania nacional e que se contrapõem a toda possibilidade de desenvolvimento sustentável e auto-suficiente. São processos que tecem uma densa tela que envolve a terra, definindo desta forma férreos critérios de interdependência entre os países do planeta. É uma interdependência que assumiu uma forma capitalista e se impôs quando o mercado se tornou a regra dominante.
No mundo contemporâneo, as flutuações financeiras globais ultrapassam a capacidade de as instituições locais monitorarem, controlarem ou mitigarem o movimento do capital. Isso provoca o desmantelamento e a sucessiva reconstrução das instituições, com efeitos perversos sobre as economias locais. O dinheiro se move à velocidade do sinal eletrônico, mas o tempo das decisões políticas e dos projetos estratégicos das nações e dos povos solicita períodos maiores de maturação e implementação. Portanto, a economia global se descola progressivamente da política. A natureza dos fenômenos derivados do livre fluxo das forças do capital se move à velocidade do sinal eletrônico, e suas conseqüências institucionais. A globalização econômica não é acompanhada da universalização da invenção democrática ou de sua expansão pela ampliação do intercâmbio entre os povos.
No processo da globalização o Estado entra num processo de enfraquecimento, as pessoas ricas contratam exércitos particulares, povos fundamentalistas se armam, a classe média apóia a militarização da vida e os grandes setores excluídos também desenvolvem as suas formas de violência. Ao se reduzir a globalização à lógica puramente econômica, perdem-se de vista o conjunto de mudanças na organização social contemporânea e as novas redes de relações em todas as esferas da vida coletiva. O próprio capital se move de maneira diferenciada: anteriormente, ele se estabelecia duradouramente nas localidades e nos territórios, explorando os recursos naturais, os insumos e a força de trabalho. Por se mover à velocidade do sinal eletrônico, o capital não tem qualquer dificuldade de “desarmar as suas tendas”, como aparece na literatura dedicada ao exame das flutuações produtivas e financeiras. Essa volatilidade dispensa a administração, o gerenciamento, as garantias para o trabalho e faz das pessoas que detêm o dinheiro uma massa de “senhores ausentes” (na expressão de Zygmunt Bauman) porque estão em todo lugar e em lugar nenhum. O mecanismo é de desengajamento e de fuga, protagonizado por uma espécie de capital-guerrilheiro da máxima usurpação.
Nessa lógica, o enfraquecimento do Estado está vinculado ao estreitamento do espaço público na contemporaneidade resultam na extrema privatização da vida cotidiana e na deformação do sentido da proteção social. Quando as políticas sociais tornam-se políticas de encarceramento do refugo humano, abre-se a temporada da autodefesa, uma vez que os muros das prisões tornam-se a radicalização da metáfora que tem nas cancelas e guaritas dos condomínios a sua feição branda e ilusoriamente “confortável” ou “asseguradora”. “Lá fora”, na vida pública, onde as pessoas se encontram, misturam-se, atordoam- se com as demais vidas, aquelas que são protegidas se amedrontam, e o Estado trata de erigir as alfândegas sociais. A “ordem” passa a se constituir por pessoas tementes à violência – palavra que pode conter terríveis tragédias e vilanias, como também a simples manifestação do medo e da intolerância –, configuração institucional que não dissipa o sentimento de isolamento, de vulnerabilidade e de uma existência reduzida ao mínimo pela rotinização da manutenção de guardas e vigilantes que só o dinheiro pode comprar.
No avançar dessa discussão, Bauman faz uma análise das categorias de espaço e tempo, a noção de local e global. Bauman procura entender as tensões existentes em um contexto pós-moderno e a partir dele, sugere alternativas para se rever as concepções do mundo contemporâneo. Segundo Bauman, a globalização é uma meta desejada, e para outros ela é vista de modo desfavorável, porém, independentemente das opiniões formadas, ela é um processo que não pode ser revertido. Um dos pontos mais importantes do debate sobre a globalização é a apreciação das desigualdades e dos processos hegemônicos no quadro da compressão do tempo e do espaço, determinada pelo desenvolvimento tecnológico. A comunicação eletrônica instantânea e o transporte rápido de massa permitem que acontecimentos distantes afetem os destinos locais. Na economia, na política, na cultura e no conhecimento, as fronteiras são sucessivamente ultrapassadas, o que resulta em uma interdependência acelerada e um “mundo em processo de encolhimento”. Isso provoca mudanças estruturais nas interações e na organização social, porque a ação à distância não se resume a “algo que acontece com os outros”.
Na discussão sobre globalização, Bauman busca dar clareza aos fenômenos visualizados: espaço e tempo, local e global e o autor também desvendar a importância de entender a sensação de apreensão existente no mundo pós-moderno. Assim, ele faz uma análise da construção das grandes corporações e sua localização no tempo e no espaço e o conflito gerado pela falta da presença física dos investidores: “A companhia pertence às pessoas que nela investem - não aos seus empregados ou à localidade em que se situa” Bauman (1999, p. 13). Frente a isso, outro termo usado pelo autor – derretimento – será empregado para designar a desintegração desse discurso sólido e fixo já em vias de enferrujamento dos compostos institucionalizados. Ele faz uma reflexão a respeito de como são construídas as grandes incorporações, indagando sobre a falta de assistência presencial dos investidores, que são os verdadeiros tomadores de decisão. Constitui-se, portanto, neste projeto, a materialização de duas formas proeminentes do espaço, onde quem está livre da localidade pode escapar dos adventos da globalização. Já os que estão presos ao local, estão fadados a cumprir as penalidades do processo.
A globalização, em sentido mais que econômico, não é algo que acontece “lá fora”, mas também “aqui dentro”. É um processo múltiplo, que alcança as mais variadas dimensões da vida social e também se expressa nas circunstâncias da vida local. Não está submetida ao controle de nenhuma nação, grupo de nações ou de grandes empresas. O fato apresentado é que a comunidade e os empregados das empresas não têm por nenhum momento voz ativa na tomada de decisão. Os empregados em nenhum momento têm força de decisão, que as resoluções são tomadas pelos empregadores de capital, geralmente não locais, ao contrário dos funcionários, que têm familiares e moradia local, e que o intuito é buscar lucro com a exploração mão de obra da região. Essa mão de obra está presa à área e fica à mercê de acionistas que, acaso vislumbrarem perspectivas de maiores lucros em outro domínio, o fazem sem se preocupar nos efeitos desastrosos desse ato. Existem basicamente duas formas do espaço: aquele onde quem não está aprisionado pela localidade e os que não estão livres da localidade. Os primeiros podem escapar da globalização e dos seus resultados, diferentemente do segundo grupo. As deliberações são tomadas por investidores não locais, tornando-os incessíveis as necessidades locais. Para estes investidores, o que está em jogo é o maior acúmulo de capital, ou seja, a busca incessante pelo lucro, sendo a exploração da mão de obra um determinante do seu objetivo.
Os acionistas não estão presos ao local, portanto seu capital não depende da localização, ao contrário dos funcionários, que tem seus vínculos familiares e suas obrigações. Desta forma, o empregado não pode mudar-se de acordo com a necessidade da empresa, ele está preso ao espaço. Desta maneira, quando os acionistas vislumbram maiores oportunidades em outras localidades, prevendo maiores dividendos, estes o fazem sem problema, deixando “a tarefa de lamber as feridas” para as pessoas que estão presas a localidade (BAUMAN, 1999 p.15).
Não há mais, por conseguinte, atitudes de pressão ao capital, pois como a empresa perdeu seu vinculo com o local, tornou-se também, resistente à coação dos trabalhadores. Consequentemente, o capital quando pressionado tem a alternativa de procurar lugares mais pacíficos, ou como sugere Bauman (1999), “uma opção mais suave”. Sendo assim, as distâncias já não importam mais, pois o que está sendo apresentado é o fim da geografia em termos de espaço, sendo as fronteiras meras formas simbólicas e sociais. “a distância é um produto social; sua extensão varia dependendo da velocidade com a qual pode ser vencida” (BAUMAN, 1999 p. 19).
As empresas perante a falta de localidade, acabam impondo pressões aos Estados. Uma empresa pode demitir pessoas nas mais diversas localidades sem ter prejuízos econômicos, deixando para o Estado as futuras conseqüências que este fato irá gerar. Devido a isso, Bauman diz que o Estado vem sofrendo um definhamento, ou seja, existe uma forte tendência à eliminação do Estado-Nação. Assim, Bauman identifica a fragilidade da soberania do Estado, que tem de abrir mão do seu controle para privilegiar a nova ordem mundial. Essa desordem mundial nada mais é do que uma sequência de atos, que se inicia com a falta de definição dos rumos e da falta de quem a controla. Devido a esse processo, Bauman diz que “o significado mais profundo transmitido pela idéia da globalização é o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; a ausência de um centro de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo” (p. 67), portanto, a globalização não é nada mais que um processo de desordem da economia e das relações sociais e que leva a percursos inesperados, pois, não se planejam os caminhos, simplesmente eles acontecem.
A globalização impõe seus preceitos de forma totalitária e indissolúvel, impondo pressões que o Estado não é capaz de dirimir, ou seja, para Bauman alguns minutos bastam para que as empresas e a Nação entrem em colapso.
O Estado está despido de seu poder e de sua autoridade, somente lhe restou ferramentas básicas para manutenção do interesse das grandes organizações empresariais. Cabe, desta maneira, enfatizar que toda essa desorganização tem como ponto culminante, as regras de livre mercado, políticas especulatórias, capital global e um Estado diminuto e fraco, que tem como única função a manutenção e criação de processos que mantenham a estabilidade financeira e econômica. Portanto, não se espera do Estado o mesmo papel de outrora, este novo Estado que surge é uma máquina dependente dos processos produtivos. Esta circunstância leva ao que o autor chama de nova desordem mundial. Hoje não se sabe quem está no controle, ou pior, não existe ninguém no comando da situação, sendo assim, não existe um consenso global dos rumos que a humanidade deve seguir e por onde se locomover. Estes processos estão cada vez mais abertos e a globalização está constituída por seu ”caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais”, portanto, a nova desordem mundial é uma seqüência de ações, que parte da falta de definição dos rumos a serem tomados e quem está no controle, assim como, a falta um centro que una os interesses da civilização. Portanto, globalização nada mais é do que o processo de desordem da economia e das relações sociais que leva a percursos inesperados, não há como planejar os caminhos a serem almejados. Não se supõe em tempos atuais, um Estado que vise uma política fechada que não deslumbre o mercado global. O poder econômico foi extremamente abalado e não existem maneiras de se governar a partir de ideologias políticas e interesses soberanos da nação.
Mesmo que o Estado esteja a cada dia perdendo seu espaço e tornando-se mais fraco, para o autor, ele ainda se utiliza de forças coibitivas para minimizar alguns setores sociais, em contra partida, este mesmo Estado, cria condições para o mercado financeiro e investidores. Este Estado tem como modelo um maior controle dos gastos públicos, redução de impostos, reformulação dos sistemas de proteção social e diminuição da rigidez das leis trabalhistas. Portanto, prioriza os setores do capital financeiro e bloqueia os poucos recursos destinados aos setores sociais em nome de maior controle dos gastos públicos.

4- Conseqüências Humanas da Globalização
De acordo com Bauman, um dos efeitos da globalização seriam o aumento da exclusão social e o redimensionamento do conceito de bem-estar social. Além disso, o Estado-nação se caracteriza sempre mais pelas medidas contra os “portadores” de insegurança. As imensas desigualdades da globalização, situadas no ambiente da compressão do tempo e do espaço, permitem conceber essa nova ordem sob a marca da economia política da incerteza, definida como “o conjunto de ‘regras para pôr fim a todas as regras’ imposto pelos poderes financeiros, capitalista e comercial extraterritoriais sobre as autoridades políticas locais” (Bauman, 2000, p. 175). Nada fica no lugar por muito tempo. O contraste é grande com o desenvolvimento do capitalismo industrial no qual os investimentos, as instalações e as máquinas fixavam-se duradouramente nas localidades e nos territórios. A economia política da incerteza desmantela tudo, e alguns de seus alvos foram as redes públicas de proteção social porque o Estado não pode ser deficitário e a confiança internacional requer esse atestado de bons antecedentes. Enquanto o capital flui livremente, a política permanece irremediavelmente local: a globalização retira o poder da política, pois parece que a arena das decisões está em um espaço impalpável. Consolidou-se, assim, o decréscimo da responsabilidade da comunidade sobre o destino daqueles(as) que a integram.
A vida cotidiana nunca esteve tão vulnerável aos acontecimentos globais, o que afeta as ações humanas e os próprios contornos institucionais. Em um mundo cada vez mais interdependente, com uma circulação inaudita de idéias, valores e heranças culturais, a defesa da “pureza” de um determinado conjunto de doutrinas é a última trincheira onde se amontoam os desenganados da globalização, cujo efeito prático é a rejeição do engajamento dialógico de idéias no espaço público. As pessoas se retraem no individualismo e na privatização de variadas dimensões da vida social temendo pela sua “segurança”, elas tendem a se desinteressar pela ação coletiva ou pela recomposição das redes de solidariedade social, traduzindo sua passividade e seu medo em votos para aqueles(as) que prometem “ordem”.
Essa demanda por segurança implica políticas sociais de criminalização da pobreza que aprofundam as fronteiras sociais. Segundo os dados apresentados em outro livro de Bauman, Globalização: as conseqüências humanas há um aumento considerável de pessoas atingidas pela legislação criminal e destinadas às prisões. De 1979 a 1997, nos Estados Unidos, a proporção de prisioneiros(as) ou de pessoas sob a tutela da lei para cada 100 mil habitantes subiu de 230 para 649 (2% da população estava sob controle do sistema penal). Do início da década de 1960 até hoje, esse número subiu de 40 para 64 na Noruega e de 30 para 86 na Holanda. Atualmente, na Inglaterra e no País de Gales, 114 para cada 100 mil habitantes têm suas mazelas com o sistema penal. É, portanto, uma segurança experimentada apesar dos outros, em vez de uma segurança vivida com os outros.
No novo contexto mundial, a mobilidade tornou-se um dos pontos mais desejados, pois dela decorre a proeminente hierarquia social, onde os padrões econômicos, sociais e políticos deixaram à esfera local e passaram a agir mundialmente, sendo, portanto, indispensável esta liberdade de ajustamento, pois dela deriva a eficácia do capital e dos investidores modernos. Este encurtamento das distâncias e término da geografia é um efeito da velocidade das informações e dos meios de comunicação, assim como um crescente desenvolvimento de novas tecnologias que ao invés de diminuir os espaços das diferenças homogeneizando-as, ele as tornou polarizadas.
Para alguns ele assegura uma liberdade sem precedentes para se locomover, adaptar e agir à distância, assim podem se locomover para fora da localidade. Mas para outros esta distância continua muito abrangente, cabendo a estes somente o caminho da observação e da constante inépcia para a utilização das informações adquiridas.
“Diz-se com freqüência e com mais freqüência ainda é tido como certo que a idéia de espaço social nasce na cabeça dos sociólogos” (BAUMAN, 1999, p. 34), mas o que é visto e comprovado é o oposto.
O homem desde os primórdios da sociedade sempre se utilizou de padrões de comparação e medidas, de limites e fronteiras. A partir desta idéia o autor nos expõe à luz a discussão da estrutura proposta pelos homens em padronizar os espaços geográficos e a partir dele construir um espaço de reprodução e homogeneidade, tanto no que tange os mapas das cidades, como a própria construção desta. Assim, Bauman delineia que para a construção e visão da cidade perfeita os homens são obrigados a rejeitar a história e seus traços palpáveis. Todo esse processo de transformação redundou na precarização e na desintegração dos “laços humanos”, onde a vida seguida de seus padrões lógicos permeou a solidão e demudou as relações sociais em relações autônomas. Bauman afirma que desde a origem da sociedade sempre foram utilizados padrões de comparação de medida, limites e fronteiras, contrariando a ideia de que o espaço social nasce na cabeça dos sociólogos. Partindo dessa premissa, o autor nos expõe à luz de que o ser humano tendenciosamente busca homogeneidade na forma de produzir mapas e a construção de cidades com estruturas similares, utopicamente buscando a “cidade perfeita” e que para a construção e visão da cidade perfeita os homens são obrigados a rejeitar a história e seus traços palpáveis. Esse mapa, não só geograficamente falando, tinha que ser uniformizado de acordo com as necessidades do Estado Pré-moderno, que, para se tornar moderno, teria que ser oficialmente aprovado por esse mesmo Estado. E com todo esse processo de transformação operou-se uma desintegração aos “laços humanos”, onde, com a padronização, as relações sociais se tornaram autônomas e, arremata Bauman que “os homens não se tornam bons simplesmente seguindo as boas ordens ou o bom plano de outros”. Na construção da cidade idealizada, esqueceram que ela depende da oportunidade dada aos homens, pois são eles, e somente eles, que devem se privilegiar desta harmonia “os homens não se tornam bons simplesmente seguindo as boas ordens ou o bom plano de outros” (BAUMAN, 1999 p 54).
A cidade que outrora fora criada para preservar o coletivo dos males vindos de fora, agora serve para preservar os cidadãos do “inimigo interior”. Sendo assim, pode-se considerar que a cidade foi originalmente criada para preservar a todos dos males vindos de fora. Basta que se observe cada vez mais a busca pela própria segurança como a utilização de carros fechados, sistemas de segurança, etc. Estamos nos isolando cada vez mais, pois o evitamento e a separação fazem parte das estratégias de sobrevivência nas grandes cidades. Os muros não estão mais para proteger as cidades e, sim, para blindar o indivíduo que agora se protege dentro de sua casa e de seus muros. Partindo desta reorganização social, o Estado ganha um novo sentido na visão de Bauman. No seu terceiro capitulo o autor trabalha com a mudança e a nova perspectiva do Estado, onde este abre uma divisão com a economia. Com a velocidade dos novos acontecimentos, a economia ganha um impulso determinante, que acaba por romper com as últimas barreiras de proteção do Estado, ficando este condicionado ao fator econômico.
Para Bauman (1999) a pobreza leva ao processo de degradação social que nega as condições mínimas de vida humana. A soma do resultado “fome=pobreza”, derivam outros fatores que “enfraquecem os laços sociais” e passam a destruir também, os laços afetivos e familiares. Todas as tentativas de mudança encontram barreiras e sua eficiência é momentânea, pois, este sofrimento da sociedade humana tem como precedente, amaras, que são facilmente retraçadas e mutáveis pela globalização e pelo sistema de produção capitalista. A globalização deu mais oportunidades aos extremamente ricos de ganhar dinheiro mais rápido. Esses indivíduos utilizam a mais recente tecnologia para movimentar largas somas de dinheiro mundo afora com extrema rapidez e especular com eficiência cada vez maior. Infelizmente, a tecnologia não causa impactos nas vidas dos pobres do mundo. De fato, a globalização é um paradoxo: é muito benéfica para muito poucos, mas deixa de fora ou marginaliza dois terços da população mundial. BAUMAN, 1999, p. 79). Assim sendo, Bauman destaca que a cada momento temos um aumento da pobreza, diminuição das condições mínimas de sobrevivência. Em contrapartida, existe um aumento das grandes potências empresarias e da exploração advinda do seu modelo desvinculado do local, tendo na sua visão e modelo global, um alicerce para sua manutenção e precarização da vida humana.
Com essa discussão, Bauman pensa o mundo como uma sociedade global e, continua, os estudos e as interpretações focalizando temas como: grupos sociais e classes sociais, guerra, revolução, modernidade e pós-modernidade. Enfim, a produção de Bauman produz interrogações sobre o modo pelo qual se forma, conforma, organiza e transforma a sociedade nacional e as estruturas. Para apreendê-las, é necessário repensar aspectos das Ciências Sociais. Bauman não propõe um rigor de uma mudança paradigmática, mas elabora o estoque de conceitos, como: identidade nacional, partidos, história nacional e modernização.

Jucélia Bispo dos Santo
(1) Doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Sergipe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. 1ª ed. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 1999.
_____. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. 1ª ed. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
_____. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.______.Identidade: entrevista à Benedetto Vecchi. 1ª ed. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 2005.
_____.Identidade: entrevista à Benedetto Vecchi. 1ª ed. Rio de Janeiro: J. Zahar Editor, 2005.
_____.Globalização: as conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
_____. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
_____. Medo Líquido. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2008.
_____. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
_____.O Mal-Estar da Pós-Modernidade. 1ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 1998.
_____.Vida Líquida. 1ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.





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